Ultimamente, as atividades de casa escolares se transformaram em um tema de debate controvertido no mundo educacional. Como equipe escolar, enfrentamos frequentemente a mesma decisão: devemos dar atividades de casa aos nossos alunos? E se fizermos isso, que devemos fazer para que sejam eficazes? Essas questões transcenderam os círculos educacionais, chegando a ser objeto de discussão em muitos países. Neste artigo, exploraremos essas perguntas a partir de pesquisas existentes, com o olhar voltado para as atividades de casa durante o ano letivo. Independentemente do nosso papel ou contexto, acreditamos que essas ideias nos ajudarão a refletir.
A primeira coisa que devemos admitir é que as pesquisas ainda não permitiram resolver esse debate histórico de forma conclusiva. Por um lado, há muitos fatores que influenciam a eficácia das atividades de casa no aprendizado: o propósito percebido pelos alunos, o contexto socioeconômico e familiar, a idade, o tempo e o esforço que requerem e até que ponto são realizadas, entre outros.
Antes de analisar esses fatores, devemos nos perguntar por que queremos que nossos alunos façam atividades de casa. Ter clareza sobre o propósito nos ajudará a colocar cada elemento na balança e a pensar de maneira crítica.
Passar atividades de casa: que fatores devem ser analisados para tomar uma decisão consciente?
Um dos principais fatores na hora de tomar uma decisão como professores é o contexto socioeconômico da turma. Rønning (2011) destaca que as atividades de casa podem se tornar um fator de desigualdade: os alunos de famílias com um nível socioeconômico alto tendem a ter melhor desempenho quando recebem atividades de casa, enquanto os alunos de ambientes menos favorecidos não experimentam nenhuma melhora. Os dados do PISA reforçam essa ideia, indicando que os estudantes de ambientes desfavorecidos dedicam menos tempo a fazer as atividades de casa e não melhoram seu desempenho. Se tomamos consciência dessa desigualdade, devemos garantir a aprendizagem de cada aluno, independentemente das atividades de casa. É necessário que tanto a descoberta quanto a consolidação da aprendizagem essencial se concentrem na sala de aula, dando às atividades de casa um papel de reforço adicional.
O contexto familiar é relevante. Por exemplo, a falta de um espaço tranquilo para estudar ou o acesso limitado à internet podem dificultar o aproveitamento das atividades de casa. No entanto, além das condições materiais, a pesquisa indica que a maneira como as famílias oferecem apoio pode fazer a diferença. Estudos do PISA (2018) sugerem que um ambiente propício para o estudo é fundamental, enquanto outras pesquisas (Šilinskas e Kikas, 2017) indicam que os alunos podem se beneficiar quando não percebem a supervisão dos pais como uma forma de controle, mas como uma demonstração de interesse por seu processo de aprendizado. Lange e Meaney (2011) observaram que se em casa é transmitida uma mensagem contraditória em relação ao que os alunos aprendem na escola, isso pode gerar frustração. A partir disso, podemos concluir que há uma necessidade de fortalecer o vínculo entre escola e família, com espaços para compartilhar esse tipo de informação e o trabalho que está sendo realizado na sala de aula.
Um dos fatores objetivos com evidências mais claras é a idade. Quanto maiores são os alunos, maior é o benefício potencial que podem obter das atividades de casa. Nos anos iniciais, por exemplo, os ganhos são pequenos, mesmo nos melhores cenários. De fato, em um dos estudos mais rigorosos enfocados em matemática e ciências, Fan et al. (2017) descobriram que o efeito nos anos iniciais era quase nulo. Nessas idades, os alunos estão começando a desenvolver seus hábitos de estudo e se distraem com maior facilidade, o que dificulta que as atividades de casa sejam especialmente eficazes (Cooper 1989; Hoover-Dempsey et al. 2001; Leone e Richards 1989; Muhlenbruck et al. 2000).
Retomando a questão do propósito, o que mais ouvimos das equipes escolares é que os estudantes devem praticar e consolidar o seu aprendizado. No entanto, é essencial que esse propósito também seja percebido pelos alunos. Para isso, devemos ser claros na comunicação, explicando por que são necessárias as atividades de casa que atribuímos, e estar atentos a como elas são recebidas. Se os alunos acreditarem que o único objetivo é a nota, só aqueles que já têm conhecimentos prévios farão as atividades. Os demais, vão frequentemente recorrer a métodos que podem prejudicar seu aprendizado, como copiar ou aplicar procedimentos de maneira automática (Liljedahl, 2020).
Liljedahl (2020) reforça essa mensagem e, por sua vez, fala da desigualdade: “os alunos que realmente fazem as atividades de casa são aqueles que menos precisam delas, e os que mais precisam são os que menos as fazem”. Além disso, percebemos que o esforço dedicado a realizar as atividades de casa é mais importante para o sucesso acadêmico que o tempo ou a frequência com que essas atividades são feitas (Trautwein, 2007; Fan et al., 2017; Cooper et al., 1998). Isso nos convida a fazer um acompanhamento adequado, que não consista em dar notas, mas em valorizar aqueles que dedicaram esforço para completar a atividade.
Da mesma forma, quando os alunos percebem que realizamos um acompanhamento consciente das atividades de casa, tendem a dedicar mais esforço e aprofundar-se mais nas atividades (Fan et al., 2017). Como diz Cooper (1989), fazer atividades de casa por medo de sofrer consequências negativas transforma uma situação autônoma de aprendizagem em uma situação de falta de confiança. Se queremos evitar isso, é fundamental que sejamos coerentes, não só com a mensagem, mas também com a avaliação.
Um último fator a considerar é o impacto que as atividades de casa têm nos resultados das provas padronizadas. Nesse sentido, Maltese et al. (2012) descobriram, que nos anos finais, há uma relação positiva entre as atividades de casa e os resultados dessas provas. Além disso, não devemos confundir a função de sua avaliação: embora a avaliação dessas provas seja somativa, podemos praticar sem necessidade de dar notas. Nessa linha, um estudo do PISA (2018) focado em alunos do 9º ano explica que, embora fazer mais atividades de casa se correlacione com melhores resultados, tanto individualmente quanto no nível da escola, essa melhora não se traduz nos resultados gerais de um país. Isso implica que existem outros fatores, como a qualidade da instrução ou a gestão da escola, que têm um impacto maior que as atividades de casa nos resultados das provas.
Encorajamos vocês a refletir sobre esses fatores e a pensar em como eles se refletem no seu dia a dia. Que decisões foram tomadas até agora? Que impacto você observou em seus alunos?
Certamente, virão à mente diversas situações. Por que em alguns casos as atividades de casa despertaram interesse e funcionaram, e em outros não tanto? Como podemos motivar todos os alunos? O que mais deve ser considerado pela equipe docente? Vamos explorar juntos.
Como deveriam ser as atividades de casa? Três características a considerar
- De duração adequada e equilibrada com as outras matérias. Não há uma receita mágica, e o tempo dedicado não é o fator mais importante. Mas em qualquer caso, é fundamental não exagerar. Segundo o Departamento de Educação dos EUA (1998), até o 3º ano dos anos iniciais, as atividades de casa não deveriam ultrapassar os 20 minutos diários, e essa quantidade pode ir aumentando progressivamente até o ensino médio, quando as atividades de casa poderiam requerer entre uma hora e meia e duas horas e meia por dia. Esse tempo inclui todas as matérias. É importante considerar o número de horas que já passam na escola e a necessidade de equilíbrio entre as matérias.
- Simples, motivadoras, autônomas e variadas. Para motivar o aluno, um desafio simples e bem planejado, onde ele possa aplicar conhecimentos já adquiridos, é mais adequado que uma folha cheia de atividades mecânicas. A atividade também deve ser acessível para o aluno, ou seja, ele deve poder afrontá-la com sucesso sem necessidade de ajuda (Vatterott, 2010).
Por exemplo, observem dois tipos de atividades. Encorajamos você a dedicar alguns minutos para fazer a da esquerda e comparar!
Independentemente da riqueza do desafio, é necessário variá-lo. Se os alunos percebem diversidade e não sentem que é algo que “já fizeram” na aula, é mais provável que a façam de verdade (Departamento de Educação dos EUA, 1998).
3. Coerentes com o tipo de aprendizagem na sala de aula. É fundamental manter coerência. Por exemplo, se trabalharmos diversas estratégias de pensamento aditivo, devemos evitar propor um problema que se resolva usando unicamente o algoritmo vertical clássico. Essa flexibilidade também é fundamental para que desenvolvam confiança e possam colocar em prática o que aprenderam na aula. Além disso, como dissemos anteriormente, devemos nos assegurar de que as famílias compreendem esse aprendizado.
Atividades de casa com propósito e alinhadas com a aprendizagem
Em definitivo, a decisão de atribuir atividades de casa requer uma consciência clara das necessidades e do contexto de nossos alunos. Como vimos, fatores como o contexto socioeconômico e familiar, a percepção do propósito, o esforço e a finalização, ou a avaliação, têm um impacto significativo em sua eficácia. Além disso, a etapa educativa é um fator determinante: há poucas evidências do benefício das atividades de casa nos anos iniciais, enquanto nos anos finais, ele é maior.
Além disso, as atividades de casa podem ser uma ferramenta valiosa para consolidar a aprendizagem e fomentar a autonomia dos alunos em determinados contextos, mas só se forem planejadas de maneira adequada. É fundamental que as atividades de casa possam ser realizadas de forma autônoma, sejam coerentes com a metodologia utilizada na sala de aula e não sejam percebidas como uma ferramenta de controle. Devemos conseguir motivar os alunos, não através do medo ao julgamento ou à nota, mas mediante atividades ricas e variadas que estimulem o pensamento e permitam aplicar o que foi aprendido na sala de aula, e não cálculos repetitivos e mecânicos.
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