8 recomendações de Andreas Schleicher, criador dos testes PISA, para melhorar a educação

Innovamat
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30/05/2024|10 min de leitura
8 recomendações de Andreas Schleicher, criador dos testes PISA, para melhorar a educação
Recupere o evento completo (ou se preferir, a versão original):
A publicação do relatório PISA gerou uma polarização de opiniões em relação à aprendizagem por competências. Por isso, foi tão relevante para nós a possibilidade de organizar, em conjunto com a Fundación Cercle d’Economia, um encontro com o Diretor de Educação da OCDE, criador e coordenador dos testes PISA, Andreas Schleicher, e a comunidade educativa. Poder ouvir em primeira mão a sua interpretação dos resultados do relatório PISA, publicado em dezembro passado, era essencial. Schleicher defende que devemos promover a aprendizagem baseada em competências na sala de aula: “não se trata de fazer os alunos reproduzirem o que já sabem. “Os professores devem fazer as perguntas adequadas para eles raciocinem e possam aplicar o que aprenderam na escola em outros contextos”.

Há algumas semanas, soubemos que Schleicher, uma das figuras mais influentes na área educacional mundial, participaria da Reunião Anual do Cercle d’Economia (RCE) em Barcelona. Foi nesse momento que conversei com Coral Regí, ex-diretora da Escola Virolai, presidente do Fórum Europeu de Administradores Educacionais (FEAE) da Catalunha e membro do Conselho de Estado da FEAE, e Pedro Fontana, presidente da Fundación Cercle d’Economia, vice-presidente do Conselho de Administração do Banco Sabadell e presidente do Conselho de Administração de Áreas, para organizar um encontro com Schleicher e a comunidade educativa. Nasceu assim o evento ‘Escola, o reflexo da sociedade do futuro’, que realizamos no dia 23 de maio no Cercle d’Economia. Nesse espaço, foi possível conhecer a visão do especialista, juntamente com a experiência de pessoas como Verónica Sánchez Orpella, membro da equipe de gestão da Escola L’Horitzó, Albert Vilalta Riera, professor e pesquisador de didática da matemática na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB) e membro da equipe docente da Innovamat, e Joan-Ramon Borrell, professor de Economia da Universitat de Barcelona (UB) e secretário do Premi Ensenyament Fundació Cercle d’Economia.

Antes do evento, pude assistir ao colóquio ‘A educação como alavanca para a produtividade‘, que Schleicher realizou na RCE do Palácio de Congressos de Barcelona e ​​​​no qual fez uma comparação exaustiva da educação em diversos países. “Pode-se dizer que, em muitos casos, o sistema atual prepara os alunos para o nosso passado, mas não para o futuro. A educação deve ajudar a entender o que é importante para você, em que você realmente pode se destacar e o que o mundo precisa de você”, destacou.

8 conclusões de Andreas Schleicher para melhorar a educação

O diretor dos testes PISA proporcionou diversas pautas no sentido de adaptar o nosso sistema educativo, com o objetivo de preparar os alunos para desenvolver o raciocínio e o pensamento crítico, capacitando-os para enfrentar o futuro com o maior número de garantias possível. A seguir, compartilho com vocês algumas ideias que podem servir de orientação para descobrir o rumo que as escolas devem tomar:

1. Não basta apenas reproduzir o conhecimento, o aluno deve saber aplicá-lo na vida real

Segundo Schleicher, os resultados dos testes PISA indicam que muitos alunos apresentam as maiores dificuldades nas tarefas que são mais importantes para o seu futuro. Na Catalunha, por exemplo, os alunos são bons na reprodução do conteúdo que aprenderam, mas têm dificuldades quando tentam extrapolar o conteúdo aprendido para situações que não são familiares. Ao longo de seu discurso, Schleicher enfatizou a importância de aprender por competências na preparação dos alunos para enfrentar os desafios de amanhã. “Os alunos têm que ser capazes de fazer seus próprios experimentos e enfrentar desafios desconhecidos, em vez de apenas receber as respostas dos professores.”

2. Menos é mais: ensinar menos coisas com maior profundidade

Segundo Schleicher, “temos que ensinar menos coisas, mas com maior profundidade”. Só assim garantiremos que nossos alunos entendam e compreendam os conceitos. Tanto na Catalunha, como na Espanha, conseguimos garantir que todos os alunos alcancem o nível mínimo, mas poucos atingem o nível mais alto da curva de resultados. De fato, em uma entrevista concedida ao jornal Ara (em espanhol), Schleicher destaca que “os estudantes da Catalunha aprendem demasiadas coisas e com pouca profundidade. Aqui, tenho visto salas onde são ensinados 17 ou 18 problemas de matemática em uma única aula, enquanto no Japão nunca se trabalha mais de uma ideia por aula. Desta forma, transmitimos um aprendizado que tem um quilômetro de comprimento, mas apenas um palmo de profundidade. Você pode acumular todo o conhecimento que quiser mas, se não tiver os fundamentos básicos, ele não terá utilidade para você.

3. Promover o pensamento crítico, o desenvolvimento de competências e uma mentalidade construtiva nos alunos

A sociedade já não recompensa as pessoas pelo seu conhecimento, mas pelo que são capazes de fazer com esse conhecimento. Na mesma linha, o pai do PISA explica que as coisas que são fáceis de ensinar são também as mais fáceis de digitalizar e automatizar. Por isso, anunciou que será permitido o acesso à Internet nas provas do PISA 2025 (jornal El Periódico, em espanhol). O objetivo é que os alunos possam acessar a informação necessária, pois o principal é saber pensar em como utilizá-la da melhor forma possível.

Para melhorar, em vez de acumular conteúdos sem profundidade, devemos focar mais no desenvolvimento de competências fundamentais para o futuro dos nossos alunos, como observar, descobrir, conectar ideias e resolver problemas. Na verdade, recomendo que você leia também a análise dos problemas matemáticos propostos nos testes PISA e seus resultados feita pela doutora em didática da matemática e professora da UOC, Laura Morera, para ver como poderíamos melhorá-los.

Os dados do PISA mostram também que os estudantes costumam pensar que o sucesso na vida só depende da inteligência de cada um, algo que acontece na Catalunha, por exemplo. É fundamental fomentar uma mentalidade construtiva entre os alunos, fazendo-os ver que podem atingir o seu potencial máximo com esforço e dedicação.

4. Responder às necessidades dos alunos para atingir seu pleno potencial

“Sei que tem havido muito debate nos níveis regional e nacional sobre a variabilidade do desempenho escolar ao comparar escolas públicas, escolas privadas, escolas boas, escolas não tão boas… A verdade é que apenas 15% da variabilidade no desempenho escolar da Catalunha tem a ver com ver com a escola. A maior parte da variação acontece dentro de cada escola e geralmente passa despercebida.”, observou Schleicher. Observando esses dados, fica claro que as escolas têm que responder muito mais às necessidades individuais de cada aluno.

Morera, no artigo onde reúne suas reflexões (em espanhol) sobre o evento, comenta que é fundamental que os professores conheçam mais e melhor os seus alunos para ajudá-los. Não podemos continuar ensinando o mesmo currículo da mesma forma a todos os alunos. Schleicher enfatizou que o sucesso educacional não consiste em que todos alcancem os mesmos resultados, sim que cada aluno alcance o seu potencial máximo, conseguindo dissociar o sucesso do contexto socioeconômico. “Muitas vezes, só temos uma oportunidade na vida: encontrar um bom professor e uma boa escola. E se você perder esse trem, tudo na vida irá contra você, porque sem uma boa educação você não conseguirá um bom emprego nem uma rede de apoio social”,destaca Schleicher em entrevista ao jornal El País (em espanhol).

5. Fazer da docência uma profissão intelectualmente atrativa

Uma das chaves para melhorar o sistema educacional mais destacadas por Schleicher foi a transformação da profissão de docente em algo intelectualmente atrativo. É vital que os professores sintam que podem gerar mudanças no sistema educativo. Temos que fomentar uma cultura colaborativa entre eles: poder observar outros colegas ensinando, planejar aulas de forma colaborativa ou até mesmo conviver com os alunos fora da sala de aula para conhecê-los e poder acompanhá-los melhor.

6. Raciocinar mais e repetir menos

Verónica Sánchez sublinhou que não é tão importante que os alunos saibam como encontrar a resposta adequada, e sim como chegam a ela. E aqui, o professor tem um papel fundamental, atuando como guia no processo de aprendizagem dos alunos, fazendo boas perguntas e estimulando o raciocínio e a conexão de ideias. “Ensinamos ciências como se fosse uma religião, convocando os alunos a acreditar em teorias científicas e dando muitos exercícios para que pratiquem. “A ciência não consiste em reproduzir o que já sabemos, e sim em questionar o que sabemos”, enfatizou Schleicher.

Na entrevista ao jornal El País (em espanhol), Schleicher explica que: “a curiosidade e o espírito crítico devem ser incentivados. “Os alunos devem ter os seus próprios projetos, as suas próprias ideias e espaço para experimentar”.

7. Promover a formação contínua dosprofessores

Sempre pensei que aprender tinha que ser um trabalho constante, nunca um objetivo alcançado. “Antes aprendíamos para realizar um trabalho. Hoje em dia, aprender é o trabalho”, observou Schleicher. E os professores têm que formar-se continuamente para ser capazes de orientar os seus alunos da forma mais eficaz e se adaptar a uma realidade cada vez mais em mudança.
Devemos repensar o papel do professor e a distribuição do seu tempo. Ele deve poder de dedicar um tempo específico a cada aluno de forma independente, desenvolvendo relacionamentos sólidos e ajudando-os a refletir sobre seu futuro e como trabalhar diariamente para atingir os seus objetivos.

8. Envolver toda a comunidade educativa e transferir a pesquisa para a sala de aula

Essas recomendações não podem ser colocadas em prática sem o envolvimento de toda a comunidade educativa. Precisamos envolver toda a sociedade neste processo transformador. As famílias devem cooperar com a comunidade educativa.
E não podemos esquecer de transferir a pesquisa em didática da matemática para a sala de aula. Albert Vilalta destacou que este é um dos grandes desafios atuais. “É fundamental que os que estão na linha da frente, os professores, estejam atentos à forma como o mundo muda. Eles devem criar um bom ambiente na sala de aula e conectar a aprendizagem com o mundo real”, enfatizou Schleicher. Só assim poderemos preparar os alunos para o futuro.
Recomendo fortemente que você assista à apresentação de Schleicher e à mesa redonda que realizamos. É fundamental poder gerar espaços que promovam o diálogo sobre a evolução da educação. Temos que educar os jovens pensando no seu futuro, e não no passado.